[Perfil-Inquieto] Tati Bueno

Tati BuenoO ano de 2015 começou, para mim, com buscas. Queria fazer algo que me desafiasse pessoalmente, não profissionalmente. Queria algo que me fizesse refletir e entender o que eu quero da vida. Foi aí que eu caí no Laboratório dos Sonhos, um curso inovador da FazINOVA, empresa que a Bel Pesce fundou. Eu me matriculei sem nem saber direito como seria, mas o nome e a mini-proposta que eu vi me pareceram perfeitos para o que eu buscava. Quando me chamaram para fazer a entrevista prévia eu gelei. Pensar em sonhos nunca foi meu forte, juro. Sempre fui uma pessoa a la Zeca Pagodinho (Deixa a vida me levar…). Eu sabia que ia ter de enfrentar a pergunta mais difícil da  minha vida: “O que você quer estar fazendo daqui a cinco anos?”. Acho a pergunta bem válida, não tenho nada contra. Mas, para mim, ela é muito estressante. A resposta direta é: “Não sei”.

Ao entrar na FazINova naquele dia da entrevista eu já estava uma pilha de nervos porque sabia que precisaria, na próxima uma hora, olhar para dentro de mim profundamente e ser sincera não apenas com a moça simpática que havia respondido meus e-mails, mas também comigo mesma. E lá eu cheguei no prédio, entrei na FazInova e fui recepcionada com muitos “Boas tardes” e sorrisos sinceros da equipe. Me senti bem, mas não confortável o suficiente com o que me esperava. Foi quando a Tati (Para os não íntimos é Tatiana Bueno) apareceu e me levou para a salinha. Ela foi tão simpática e estava tão entusiasmada com o curso que me contagiou. Fiquei nervosa, demorei para responder muitas perguntas, não sabia a resposta de outras tantas, mas a sensação-fim foi de alívio: uma batalha foi vencida. Agora faltam outras 18 (número de encontros do curso). Falar de mim naquele momento me fez muito bem, ainda mais porque me identifiquei com a Tati logo de cara: ela veio do interior do Rio de Janeiro, eu do interior de São Paulo; ela veio em busca de um sonho, eu também; ela achava a cidade de certa forma hostil, eu lhe contei minha péssima experiência dos primeiros anos em São Paulo; ela mostrou muita força de vontade, e eu também sempre achei que tenho de sobra. 

Mas foi só lá em meados do curso que eu percebi como eu e a Tati realmente éramos parecidas: ambas temos uma inquietude fora do comum. Enquanto eu estou fazendo um milhão de coisas, atendendo a muitos compromissos, projetos e cursos, a Tati estava com a mente acelerada, sem parar, pensando em milhares de coisas e um tanto fora da realidade. Eu sou uma Inquieta física, a Tati uma Inquieta mental. Eu só descobri o quanto somos igualmente Inquietas, cada qual do seu jeito, quando apresentei o projeto do Inquietos S/A. Ela se identificou logo de cara, veio falar comigo e me contou sua história: desde criança sempre apresentou um quadro de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), o que a atrapalhava na escola porque simplesmente sua mente não parava, não a deixava prestar atenção nas aulas e nos professores e, muitas vezes, a fazia dizer coisas sem pensar. A impulsividade, a fala rápida e a agitação eram claras quando criança. Para fazer o dever de casa, então, era um tormento!

Sua mãe, que trabalhava com educação infantil, não percebia, porém, que seu jeito já apontava para um TDAH e tentava lhe ajudar de outras formas, com atividades de pintura, desenho, massinha e leitura, que acabavam lhe roubando toda a atenção. Isso a deixava mais concentrada e focada. Mas o seu jeito desatento não impedia que sua inteligência aflorasse: com apenas 4 anos já estava alfabetizada. Na adolescência, ao mesmo tempo em que ela era chamada de bagunceira e dispersa e já tinha um histórico de várias escolas no currículo, ela também tinha um enorme receio de mostrar suas potencialidades, sua inteligência. Sempre que tentara, havia sido reprimida. Precisou entrar na caixinha social de ‘só falar depois de pensar’ para poder sobreviver àquele ambiente. Sua sinceridade, uma característica-nata, não tinha lugar em um mundo que as pessoas preferem se calar à falar o que pensam, sentem e acham. Frear seus estímulos – fechar a boca, literalmente – foi o remédio para a boa convivência.

Foi na época do vestibular que a Tati descobriu o que lhe afligia há anos: o TDAH. Ela foi diagnosticada por uma psicóloga depois de ter se queixado de dificuldade de concentração e foco para estudar para as provas. A dupla terapia e medicação supervisionada lhe ajudou muito e ela conseguiu entrar na faculdade de Fisioterapia. Mais solta, ela foi se autodescobrindo melhor. Identificou suas angústias, receios, percebeu como é difícil e frustrante lidar com a cobrança da sociedade e, principalmente, a própria. viajar

Quando a gente olha para dentro de nós mesmos, acontecem duas coisas: a fase da ruptura e do descobrimento. A ruptura é quando você rompe com o que estava fazendo, percebe que não estava sendo você e passa a visualizar mudanças na sua vida. O descobrimento é quando percebe o que deseja para essa sua nova vida, suas vontades, desejos e sonhos.

Tati descobriu em 2013 que precisava sair do clima de cidade pequena e viver experiências marcantes e intensas na cidade-grande. E assim, ela chegou em São Paulo. Logo de cara, apaixonou-se pela agitação da metrópole – algo que se aproximava da sua inquietude interior. Inquietos são, geralmente, perdidos em seus propósitos. Querem tanta coisa que se perdem em suas vontades. Mas quando resolvem focar, não há quem os segure. São muito estrategistas, disciplinados e persistentes. Eles saem da zona de conforto e seu poder transformador aflora. Tati é um exemplo disso. Depois de algumas tentativas profissionais sem sucesso, ela começou a correr atrás de algumas oportunidades em São Paulo. Ela não sabia se ia dar certo, mas tinha a certeza de que algo bom tiraria disso. Foi assim que chegou à FazINOVA, em um momento que a empresa ainda era um embriãozinho.

Seu propósito era motivar pessoas com talentos, mas que não encontram o ambiente adequado para estimulá-los. Para quem se formou em Fisioterapia, falar de empreendedorismo social parecia surreal. Mas foi tão real que hoje ela coordena quatro turmas do Laboratório dos Sonhos, um curso de desenvolvimento pessoal para incentivar pessoas a darem o primeiro passo para tornar seus sonhos realidade.

Tati não é apenas uma Inquieta por ter se inconformado com seu mundinho e batalhado para conhecer coisas novas. Ela também é uma Inquieta por ter promovido transformações dentro de si mesma. Ela nunca pensou em dar um passo para trás. Lidar com tantos estímulos da cidade grande REALMENTE não é fácil. Ela sempre teve dois aliados muito fortes para lhe tranquilizá-la: a leitura e a escrita. É uma pessoa que sempre terá algo para te indicar para ler. É também uma fã de pensadores e artistas ‘fora da caixa’ como Vinícius de Moraes, Cazuza, Clarice Lispector.

Naquela tarde de segunda que batemos um papo seu olhar ficou distante em vários momentos, como alguém que realmente estava mergulhando dentro de si. Muitos projetos inacabados vieram à tona na conversa, muita frustração também, mas o mais importante e o que mais me chamou a atenção é que ela não deixa a peteca cair e sonhar tem sido não apenas seu trabalho, mas sua maneira de traçar um plano para agir. Quais seus próximos passos? Certamente ela tem muitos projetos em mente – entre eles ir à Índia e montar um projeto social que aproxime jovens às oportunidades que São Paulo oferece – mas continuar à aprender a sonhar, esse sim é muito certo.

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